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Os estudos que mais tarde conduziriam ao projecto do North-American F-86 Sabre têm as suas mais antigas origens no período da 2ª Guerra Mundial quando, em 1943, se desenvolveram tentativas de transformar o Mustang num caça a reacção. Vários problemas aerodinâmicos relacionados com a formação de ondas de choque, principalmente nas asas, só viriam a ser resolvidos com base em resultados de experiências realizadas pelos alemães que conduziram à aplicação, pela 1ª vez, de asas em flecha.
O voo inaugural do ainda P-86 realizou-se a 1 de Outubro de 1947. Desde essa data, o agora designado F-86 sobreviveria a muitos problemas iniciais até se tornar, a partir de 13 de Dezembro de 1950, no principal caça da USAF na Guerra da Coreia. No final da hostilidades os Sabre tinham abatido um total de 792 MiG, entre outros, com perdas de 76 unidades, numa razão de vitórias de 10 para 1. Os Sabre viriam também a desempenhar um papel de relevo nos conflitos que opuseram a China a Taiwan, em 1954, e a Índia ao Paquistão, em 1965. Os F-86 ainda estavam operacionais na Argentina em 1982, no entanto não chegariam a ser empregues na Guerra das Malvinas.
Ao todo foram produzidos nos EUA até 1956, durante 10 anos consecutivos, 6200 F-86. Um total próximo das 2000 unidades foram produzidas em conjunto pela Canadair no Canadá, FIAT na Itália, Mitsubishi no Japão e Commonwealth Aircraft na Austrália.
Vários melhoramentos foram sendo introduzidos ao longo da sua história que se traduziram nas suas diferentes versões; os modelos A inicial, B mais tarde A-5, D versão de caça diurno/nocturno, E, F, H versão caça bombardeiro e K a última a ser produzida em série.
De modo a equipar a componente de defesa aérea da Força Aérea Portuguesa foram sendo entregues de forma sucessiva pelos EUA 50 North-American F-86F ao abrigo do Programa MDAP (Military Defence Assistance Pact). As primeiras 4 aeronaves chegaram a 25 de Agosto de 1958 à Base Aérea 2 (BA2), Ota, destinadas a equipar a Esquadra 50 "Falcões", provisoriamente aí colocada. Até final de Outubro desse mesmo ano foram recebidas a totalidade das restantes aeronaves de uma remessa inicial de 30.
Devido à revisão do sistema de numeração das unidades da FAP, em 11 de Setembro de 1958 a designação da Esquadra 50 foi alterada para Esquadra 51.
O primeiro voo de um piloto português num F-86F ocorreu no dia 22 de Setembro de 1958, realizado pelo Capitão Moura Pinto e, apenas dois(?) dias depois, o mesmo viria a ser o primeiro a quebrar a barreira do som, ainda que em voo picado. Este acontecimento, até à época inédito em território Nacional, causou alguma surpresa e apreensão nas povoações vizinhas que ouviram o ribombar característico da passagem a voo supersónico, pelo que se teve de iniciar uma campanha de informação por forma a esclarecer a origem do fenómeno.
A 4 de Outubro de 1959 foi inaugurada, com a realização de um festival aéreo onde se registou a única exibição acrobática de F-86F com as cores Nacionais, a BA5 em Monte Real a que se seguiu o processo de transferência dos Falcões para as novas instalações, concluído a 16 de Dezembro de 1959. Apenas em Janeiro de 1960 foi activada a 2ª Esquadra a operar os F-86F, a Esquadra 52 "Galos" que, em conjunto com a 51, veio a formar o Grupo Operacional 501 (GO 501).
Até Novembro de 1961 um total de 65 aparelhos foram recebidos, 15 deles provenientes da Força Aérea Norueguesa entregues por intermédio da USAF para compensar perdas e desgaste. No entanto é conhecido que 3 outros aparelhos foram entregues adicionalmente sem receber numeração oficial pois serviram apenas como fonte de peças, elevando o total de aeronaves recebidas para 68.
A contínua transferência de pilotos criou uma falta de pessoal que levou à desactivação da Esquadra 52 em 12 de Junho de 1961. Sem dúvida um curto período de existência para esta Esquadra.
Os crescentes problemas em África levaram à constituição, em Agosto de 1961, de um destacamento composto por 8 F-86F no AB 2, Bissalanca, na Guiné-Bissau. A transferência destes aparelhos, a Operação Atlas, ocorreu entre os dias 8 e 15 desse mês num voo com escalas na BA 6 no Montijo, Gando (Ilhas Canárias) e Ilha do Sal (Cabo Verde).
Durante a sua permanência na Guiné, os Sabre fizeram várias sortidas em que se incluíam missões de ataque ao solo e missões de apoio aéreo. Nesse período perderam-se 2 aeronaves, uma devido a acidente e outra devido a fogo hostil. Uma terceira seria muito danificada por fogo antiaéreo.
Devido à pressão exercida pelos EUA e outros países da NATO argumentando que as aeronaves só poderiam ser empregues em missões no âmbito do tratado do Atlântico Norte, o destacamento terminou em Outubro de 1964 com o regresso dos aparelhos, desta vez transportados por navio.
Durante os anos em que duraram os conflitos ultramarinos e até 1977 várias foram as aeronaves recebidas pela FAP, tais como os FIAT G91 e os T-38 Talon. Em simultâneo, o número de F-86F ao serviço foi diminuindo, atingindo cerca de 25 em 1974 e cerca de 12 em 1978. Neste ano uma nova restruturação na FAP levou à extinção do GO 501 e respectivas esquadras e à constituição do Grupo Operacional 51 com a redesignação da Esquadra 51 para Esquadra 201.
Os últimos 10 aparelhos mantiveram-se ao serviço na FAP até 31 de Junho de 1980, tornando Portugal o último país utilizador do Sabre na NATO. A História iria prosseguir, à falta dos F-5E Tiger II, com o A-7P Corsair.

Bibliografia:
Swinhart, Earl North American F-86.  The Aviation History On-Line Museum, 2000
Ficha Informativa nº14, North American F-86.  Museu do Ar
Carvalho, António Mimoso; Tavares, Luís The North American F-86F Sabre
Carvalho, António Mimoso F-86F Sabre-O início.  Mais Alto, Out/Nov 1998
Cardoso, Adelino; Aeronaves Militares Portuguesas no Século XX.  Essencial, Junho 2000
Correia, José Manuel; As Patrulhas Acrobáticas da BA 2, 1954-1960.  Esquadrão 33, Dezembro 2001


Ainda os Sabre na Guiné


A propósito da sua utilização em combate e aparelhos alvejados, que muitas dúvidas tem lançado eis um extracto do Correio de Leitores da Revista Mais Alto, nº260 Jul/Ago1989 Pág.48 (esclarecimentos prestados pelo General Barbeitos de Sousa):

"(...) os 8 aviões em causa atingiram Bissau em 15 de Agosto de 1961 e foram retirados por Outubro de 1964 - ou seja, após três anos de operação. E, como é sabido, a guerra assanhou-se no Verão de 1963, tendo o Sul da Província sido praticamente evacuado. Nessa altura o chamado Destacamento 52 da BA 5 iniciou mesmo acções de combate - em que se encontrava empenhado quando eu deixei em Outubro de 1963 o Comando da BA 5 para assumir o do então AB 2. E durante cerca de 15 meses (Verão de 63-Outono de 64) assim continuou: (Possivelmente o último voo F-86 na Guiné terá sido o meu, em 20 de Outubro de 1964). (...) E, para concluir, julgo que a pequena estatística que segue (respigada da Nota 483 do AB 2, 27 Nov, enviada à 2ª Rep. EMFA e relativa ao período de 8 meses, Jan-Ago 1964) poderá dar alguma ideia da importância da actuação do F-86 nas operações da Guiné:

Aeronaves atribuídas: 8 F-86F
Voos: 577 (430 com Ataque ao Solo)
Aeronaves atingidas: 7

A totalidade de F-86F enviados para a Guiné foi, contudo, superior ao referido nesta nota. Dada a substituição de alguns dos 8 aparelhos do destacamento inicial, devido à necessidade de se realizarem reparações e inspecções impossíveis de se levarem a cabo no terreno de operações, foram sendo progressivamente enviados para a Guiné outros aparelhos. Eis os números que se conseguiram reunir destas aeronaves:


Destac. inicial 5307 5314 5322 5326 5354 5356 5361 5362
Posteriores 5303 5305 5306 5313 5317 5324 5330 5331
Observações  5314 - destruído em acidente; 5322 - abatido


PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS TÉCNICAS

A FAP operou a versão F-86F-35 NA. Apenas dois eram da versão F-86F-30 NA.

Motor:
Turbina General Electric J47-GE-27 com 2708 Kgf de impulso
Comprimento:
11.44 m Tecto de serviço:
14630 m
Envergadura:
11.91 m Velocidade de cruzeiro:
826 Km/h
Altura:
4.49 m Velocidade máxima:
1107 Km/h
Peso vazio:
4940 Kg Raio de acção:
2120 Km
Peso máx descol.:
9230 Kg Armamento:
6x12.7 mm


ARMAMENTO UTILIZADO


Durante a sua permanência na FAP o F-86 dispunha, para além das 6 metralhadoras Colt Browning M3 de 12.7 mm que constituem o armamento interno, de mísseis ar-ar AIM-9 B "Sidewinder", foguetes não guiados FFAR de 70 mm e bombas General Purpose (GP) de vários tipos até uma capacidade máxima de carga de 2000 Kg. Foram ainda empregues, em acções de combate, bombas Napalm de 750 Lbs.


CORES E ESQUEMAS DE PINTURA


Foram três os esquemas de pintura aplicados nos F-86 ao serviço da FAP. Inicialmente a sua aplicação estava associada à existência de duas Esquadras de voo a operar os Sabre mas, com as sucessivas restruturações operadas, que conduziram à extinção de uma destas Esquadras, realizou-se uma convergência para um esquema final definitivo.

Esquema A: Esquema de pintura associado à Esquadra 51 "Falcões". As aeronaves apresentavam-se, predominantemente, em metal natural e com o nariz, a deriva, as pontas das asas e dos estabilizadores horizontais pintadas a azul escuro (FS 15102). A Bandeira Nacional estava pintada a verde (FS 14109) e, tal como a Cruz de Cristo, a vermelho (FS 11105). Embora com pouco tempo de diferença sobre o seguinte, este foi o primeiro esquema de pintura aplicado.

Esquema B: Esquema de pintura associado à Esquadra 52 "Galos". Novamente predominante o metal natural mas com o nariz, a deriva, as pontas das asas e dos estabilizadores horizontais pintadas a vermelho escuro (FS 11136). Os tons da Bandeira e da Cruz de Cristo mantém-se. Em fotos a preto e branco distinguem-se das anteriores dada a inexistência do stencil rectangular preto do aviso de canopy ejectável imediatamente abaixo desta. Esta pintura foi aplicada antes da activação da Esquadra.

Esquema C: Durante os anos de 1968/69 todas as aeronaves receberam uma pintura de cinzento semi-brilhante (FS 16473), com o nariz, a deriva e as pontas das asas pintadas de azul escuro (FS 15102). Foi introduzida a pintura do painel anti reflexo do nariz a preto (FS 37038). Passa-se a utilizar um vermelho mais escuro (FS 11136) na Bandeira e na Cruz de Cristo, mantendo-se o mesmo tom de verde. Refira-se que, a partir do início da década de 60, procedeu-se à alteração do formato da Cruz de Cristo em todas as aeronaves.

Embora estes tenham sido os esquemas ditos oficiais, é do conhecimento geral que os Sabre que chegaram dos EUA apresentavam-se totalmente em metal natural, desprovidos de qualquer pintura, apenas ostentando as marcas da USAF. À sua chegada foram-lhes retiradas as marcas americanas e aplicadas as marcas e insígnias Nacionais assim como as cores dos dois primeiros esquemas de pintura apresentados. Registada, pelo menos numa ocasião (festival aéreo da inauguração da BA 5, a 4 de Outubro de 1959) a utilização de aeronaves completamente desprovidas de pintura para quebrar a barreira do som.

Quando os primeiros aparelhos receberam pintura verificou-se que, para além desta se degradar muito rapidamente, impunha aos aviões maior resistência ao avanço. Tanto assim era que, quando uma esquadrilha incluía esses aviões, estes eram atribuídos aos chefes do voo para facilitar os asas em voo. Daqui resultou a necessidade de manter aviões sem pintura para utilização na passagem da barreira do som. Mais tarde, as pinturas foram melhoradas não constituindo obstáculo para essa manobra.


FOTO GALERIA


F-86F Sabre nº5319 em exposição no Museu do Ar, Alverca



F-86F Sabre nº5320 na Base Aérea 5, Monte Real



CURIOSIDADES


Esta foto retrata alguns pormenores pouco vistos. Nela estão alinhados 4 F-86F ainda em metal natural. Repare que a parte superior dos estabilizadores verticais destas aeronaves se encontra pintada a branco. Repare também no drop tank do Sabre mais próximo. Trata-se de um depósito com estabilizadores, com capacidade para 120 USgal de combustível, concebidos para combate ar-ar.


Alverca, finais de Novembro de 1967. A foto foi tirada na placa das então Oficinas Gerais de Material Aeronáutico (OGMA) e evidencia os efeitos das graves cheias do Rio Tejo ocorridas nesse mês e que deixaram para trás estragos de grande monta. Repare-se na quantidade de lama e de outros detritos acumulados perto de alguns Sabre cuja remoção só foi possível utilizando os meios retratados na foto. Também evidentes na imagem estão dois F-86 sem marcas nacionais e com mostras de que, muito provavelmente, seriam utilizados como spares.


Eis o F-86F nº5319 antes de recuperado (reparar a ausência da Cruz de Cristo) e antes de colocado no pátio do Museu do Ar em Alverca. Contudo este não é o facto mais curioso a notar na foto. Repare-se na grelha metálica colocada na entrada de ar do motor. Trata-se de um Anti-FOD - "Anti Foreign Object Damage" que chegou a ser utilizado operacionalmente na FAP. Estes dispositivos, habitualmente de maiores dimensões, são utilizados de modo a permitir efectuar testes de motor em segurança, impedindo a sucção de objectos estranhos que possam danificar o aparelho e, nos piores casos, provocar consequências dramáticas no pessoal de apoio. A protecção dos Anti-FOD é, deste modo, reciproca dado que protege o exterior da aeronave e esta do exterior...


Os Sabre "acrobáticos"

O Festival Aéreo que marcou a inauguração da BA5

A 4 de Outubro de 1959, por ocasião da inauguração da BA 5, realizou-se um festival aéreo onde se registou um facto que, pela sua efemeridade, é ainda hoje pouco conhecido da generalidade daqueles que acompanham esta temática. Como relatado na época, nesse festival participaram dezasseis Sabre, vindos da BA 2-Ota onde estavam estacionados na época, efectuando figuras acrobáticas em profundidade e em formação cerrada, entre as quais se destacam um looping seguido de "bombshell" a subir separando-se à saída em 4 esquadrilhas de 4 aviões. Destes, quatro viriam a destacar-se dos restantes realizando o que foi a primeira, mas também única, exibição de acrobacia aérea em F-86F da FAP. Os Pilotos, Maj. Moura Pinto, Cap. Lemos Ferreira, Sarg Loureiro Peixoto e Fernando Moutinho, já habituados a grandes performances com os F-84G marcaram, desta forma, o retorno efémero da Patrulha Acrobática "Dragões", extinta no ano anterior. No festival registaram-se também a passagem da barreira do som, efectuada por F-86F completamente desprovidos de pintura, e a exibição a solo efectuada pelo Cap Brochado de Miranda que viria a surpreender até os pilotos mais experientes na época.


MACH 1 - Quebrando a barreira do som

Como se realizava a manobra que conduzia ao voo supersónico

Esta era uma manobra efectuada em altitude, acima dos 35.000 pés, e com o motor no seu regime máximo. Iniciada com uma rotação do avião seguida de uma picada num angulo elevado. Durante a sua realização, o Piloto controlava a velocidade pelo indicador de Mach e, ao atingir-se 1.02 reduzia o motor e recuperava a picada, reduzindo novamente a velocidade. No momento da passagem, durante a entrada e saída da zona Mach 1 o Piloto sentia um ligeiro endurecimento dos comandos com uma pequena tendência para enrolar. Tratava-se assim de uma manobra essencialmente marcada pelo seu simbolismo...

Junto das instalações da Esquadra 201 - Falcões, na Base Aérea 5, em Monte Real foi colocado, desde 2008, um Monumento-Cauda de um F-86F ao qual foi atribuído o nº5350, evocativo do Cinquentenário desta Esquadra. O Monumento ostenta uma placa onde se pode ler: "Aos Falcões Mais Ferozes do Mundo, 50 Anos de Supremacia Aérea, 1958-2008".

Foi sob a égide de assinalar o Cinquentenário da Base Aérea 5, que um grupo de entusiastas da Aviação Militar Portuguesa se uniu à Força Aérea Portuguesa, em particular BA 5 e Esquadra 201 - Falcões para criar e aplicar um esquema de pintura especial ao F-16A nº15115. Numa pintura cheia de detalhes surge nas superfícies superiores um F-86F com as cores desta Esquadra ("Falcões") numa clara homenagem a estas aeronaves que, na sua época, desempenharam semelhantes missões às agora realizadas com os F-16. A apresentação ("Voo do Sabre") ocorreu a 22 de Julho de 2009 durante um "Spotters Day" integrado no programa das comemorações do Aniversário da Base. O 15115 viria a ostentar esta pintura até rumar à OGMA a 18 de Outubro de 2010 para dar início aos trabalhos do processo de conversão MLU.


MAIS F-86 SABRE:


COLABORARAM PARA O CONTEÚDO DESTA PÁGINA:

Carlos de Brito; José Manuel Correia; Carlos Gomes; Fernando Moreira; João Pereira; Helder Vasques
A Fernando Moutinho um especial agradecimento pelo seu valioso testemunho e contribuição para esta página

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